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Entrevista com Regina Parizi

Ao ocupar pela primeira vez o cargo de presidente da Sociedade da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB), entre 2013 e 2015, a médica Regina Ribeiro Parizi Carvalho deparou com a primeira prioridade: “arrumar a casa”.


Isso porque a entidade estava descapitalizada, havia necessidades prementes, que incluíam o mínimo de equipamentos em informática, telefones e mobiliário, até atualizar um cadastro defasado.


Com seu (conhecido) espírito de liderança, superou tais questões, e assumiu u a nova etapa na SBB quando foi reconduzida à presidência, entre 2015 e 2017. Assim, com o básico mais organizado, partiu para a concretização de planos mais ousados, dentro do possível em uma entidade ainda modesta: estruturar uma equipe mínima em secretaria e comunicação e – mais importante – ampliar o papel da Sociedade na discussão e difusão da bioética, representando seus associados em inserções junto a políticos, mídia e comunidade.


Conforme determinação estatutária, Regina encerrou sua segunda participação depois da eleição da nova gestão, durante o XII Brasileiro de Bioética, em Recife. Agora, a SBB é encabeçada pelo médico Dirceu Bartolomeu Greco.


Em um intervalo do evento, nos jardins do Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP), a agora ex-presidente concedeu a seguinte entrevista:


Por Concília Ortona


Sociedade Brasileira de Bioética – Depois de duas gestões, de 2013 a 2015, e de 2015 a 2017, a senhora deixa a presidência da SBB. Quais foram os ganhos e dificuldades?


Regina – Se uma palavra pudesse resumir este período, seria “desafio”.


Trata-se de uma sociedade ainda sem um número grande de sócios, e isto, por algumas razões.


Por exemplo, exige complexidade e conhecimento transversal, em um país que ainda não conta com perfis tão amplos de formação cultural.
Demanda ainda que saiamos de nossa área profissional estrita e tenhamos o ímpeto e a curiosidade de buscar outros conhecimentos. E, obviamente, por se tratar de entidade cuja característica é lidar com questões e valores éticos e morais, não tem nenhum apelo comercial.

 
SBB– As pessoas e especialidades acham que não vale apena você investir em Bioética?


Regina – Quando menciono a questão comercial, me refiro à dificuldade de se obterem apoios para fazer eventos e, assim, divulgar mais a Bioética.  


Não se trata de um campo como a área clínica, diagnóstica, nas quais os próprios setores específicos têm interesse em ajudar a patrocinar encontros: nosso “produto” é a reflexão ética e moral.  


SBB – A interdisciplinaridade que marca a Bioética facilita ou dificulta a relação entre as pessoas?


Regina – Esse foi outro desafio importante para mim, que já havia presidido entidades, porém, todas médicas: pela primeira vez encabecei um grupo multi e transdisciplinar, no qual precisei aprender a lidar com pessoas plurais e de outra formação profissional e, por isso, com formas diversas da minha de observarem e discutirem conflitos. Que defendem pontos de vista diferentes daqueles que fariam parte da minha pauta junto à comunidade, parlamentares, judiciário, etc.


Ou seja, pela primeira vez tive que escutar pessoas com opiniões diferenciadas que apontavam que aquilo que podia ser bom aos médicos, não servia, por exemplo, ao campo do Direito, das Ciências Sociais; ou de outras áreas de Humanidades.


Mas foi um ótimo aprendizado e a coisa mais enriquecedora dos últimos anos, no sentido de ganho pessoal.


SBB – A prioridade ao diálogo com pessoas de outras profissões acontece desde a primeira gestão?


Regina – Lógico que, no começo, o que pesava mais era o fato de a entidade estar descapitalizada.


Então, as questões mais estruturantes acabavam se impondo como prioridade quase o tempo todo, protelando as ações para o avanço em Bioética, seja para viabilizar eventos, publicações, seja para conseguir uma política de comunicação mais adequada com o associado.


Havia uma convicção interna, também, de que nossos colaboradores, em particular, nas áreas de Comunicação e Secretaria, deveriam ter formação em bioética, pela característica da SBB ser voltada ao estudo e difusão de um campo diferenciado. Entre 2015 e 2017 empreendemos uma política voltada não apenas a manter a entidade, mas buscamos ir além, investindo em informática, atualização tecnológica e nesse “bônus” que é essa equipe capacitada para levar à frente relatórios, cadastro, melhorar a alimentação do site, viabilizar rede social (página no Facebook) e outras ferramentas, como videoteca e canal no youtube – o que criou um clima e espaço de agregação de valor. 


Quando as coisas se conjugam, você tem a equipe certa, equipamentos que ajudam, em vez de atrapalhar, o associado percebe e responde, como ocorreu no XII Congresso Brasileiro de Bioética: as pessoas verbalizaram sua satisfação com o mandato que estava se encerrando, que foi uma coisa modesta, não tinha nada de espalhafatoso, mas que fez com que se sentissem representadas perante a população.


SBB – Como uma entidade voltada a refletir sobre valores morais lidou com a crise brasileira em vários níveis, que se acirrou nos últimos anos? 


Regina – Jamais imaginaríamos enfrentar um cenário traduzido em uma crise tão gigantesca, exatamente em nossa área, em ética e/ou em moral – generalizada, em todos os setores.


Deparamos com algo com uma dramaticidade, extensão, profundidade, que, em um primeiro momento, nos deixou quase paralisados perante o volume sistemático de denúncias, guerra de informações com nuanças de terrorismo midiático: você simplesmente não sabia em quem acreditar.


Imagine como tudo isso pesou, em uma entidade que preza por analisar os fatos, refletir, e apenas depois se se expressar – quiçá, aconselhar, orientar em algumas questões.


Enfim, chegou um determinado momento em que a Sociedade começou a se manifestar, através de suas posturas na mídia e editoriais. Foi quando começou a ficar visível que, independente dos ataques voltados a fragilizar pessoas e partidos, entrou em curso uma política destinada a vulnerabilizar, de novo, os já vulnerados do Brasil. Quero dizer, mais uma vez, quem está pagando a maior conta são os pobres, que sofrerão mais do que os demais pela piora nas condições de saúde e educação.


Foi só aí que ficou mais claro o lugar em que se colocaria uma sociedade como a nossa, cujo paradigma é a Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos.


SBB – Parece ser importante uma postura como esta, em um momento em que a população parece exausta e sem condições de reação e, por isso, vulnerável...


Regina – É verdade.


Vivemos em um país que já sofreu tanto, com tanta desigualdade, os indivíduos são tão vulneráveis e vulnerados aqui, que parecem estar sucumbindo em relação a outro golpe – e é este o compromisso que um campo como o da Bioética tem: de se levantar e falar, mesmo que seja por meio de uma entidade modesta e pequena como a SBB.


Apontar tudo isso foi o objetivo em nossa prestação final de contas, à qual chamamos de “Uma Ética de Compromissos” – porque foi no que nos pautamos, além da estruturação da entidade em si. Sob o ponto de vista ético e bioético, reforçarmos tal compromisso, por meio de documentos e difusão de valores em eventos e entrevistas.  


Consideramos que, sob este ponto de vista – de compromissos – cumprimos o assumido em 2013. Lógico, não com a extensão ou na profundidade necessária a uma mudança mais significativa do panorama, mas uma porta foi aberta.  


SBB – O que devemos esperar da SBB, a partir de agora?


Regina – Não existe motivo para disputa de poder na SBB, que não é uma entidade que se coloca desta forma junto à coletividade. É exigido muito de quem dirige e colabora, que precisa ter compromisso, disciplina, leitura e tolerância junto aos colegas de outras disciplinas e áreas.


Por isso, ficamos muito contentes com a chapa sucessora, formada com calma, discussão de perfis, e de disponibilidades pessoal e profissional. Toda a diretoria que está entrando conta com uma larga tradição em discutir questões éticas e bioéticas em diferentes inserções, seja na vida acadêmica, na área de regulação, direito e da Igreja – com a pluralidade que preservamos e defendemos.  


O resultado parece bastante adequado, não só para dar continuidade a alguns projetos e trabalhos, mas para avançar em outros, que sempre surgem em congressos e eventos, por exemplo, nas áreas de saúde e educação.