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Inteligência Artificial sob a perspectiva da Bioética

Os desafios de uma vida regida por algoritmos foi o mote principal de um Fórum sobre Inteligência Artificial e Bioética, promovido pela Confraria Bioethikós em 5 de maio. O evento contou com palestras de convidados ilustres, sob a mediação da jornalista Mônica Manir.

 

Após a abertura do encontro por Denise Stefanoni Combinato, representando a Confraria, os professores doutores Hans Ulrich Grumbrecht, da Universidade Stanford (USA); Alexandre Chiavegatto Filho, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo; e Cláudio Cohen, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, ministraram suas palestras que geraram amplo debate com a plateia. O anfiteatro do setor de Parasitologia da Faculdade de Medicina da USP ficou pequeno para reunir os inscritos, demonstrando o enorme interesse pelo tema.

 

Foi unânime a opinião dos três palestrantes sobre a importância de entender como caminhar para o futuro com atitude ética, reconhecendo os limites dos seres humanos, administrando conflitos e revendo constantemente sua responsabilidade social.

Para eles, é inegável o avanço da ciência, em diversos campos, e que pode trazer grandes benefícios para o ser humano. Na área da saúde, por exemplo, o emprego dos algoritmos pode auxiliar - com maior probabilidade de acertos, o diagnóstico, prognóstico e o estabelecimento de tratamentos, influenciando positivamente até mesmo a tomada de decisão dos médicos junto de seus pacientes.

 

"Uma reflexão moral deve ser imposta sempre que se pensar nessa nova realidade, que representa a convivência do homem com a máquina inteligente... estamos preparados para conviver com uma competência superior? Como ser capaz de prometer soluções para vários problemas sem interferir na bioética, mas utilizando a Inteligência Artificial para resolver questões antes não resolvidas pelo homem? Quais limites impor para esse desenvolvimento?" Estas foram as principais questões levantadas pelo prof. Ulrich aos participantes do encontro.

 

"Vejo o conceito de machine learning como a capacidade das máquinas e computadores aprenderem padrões complexos dos algoritmos de forma independente e, a partir daí, tomarem as melhores decisões inteligentes possíveis, independentes de nossa atuação." Alexandre Chiavegatto acredita que este grande passo ajudará de modo extraordinário no tratamento e na qualidade de vida de pacientes de diversas patologias, inclusive aquelas consideradas extremamente raras.

 

Ao citar o androide Sophia (veja matéria abaixo), Cláudio Cohen lembrou: "Os desejos de conhecer a verdade é algo inerente ao próprio ser humano, o que o torna ético. Ser ético ou antiético é a forma e o fim de como lidamos com as pesquisas, com o resultado dos estudos. É preciso pensar e repensar a nossa função social neste novo contexto bioético e do que o ser humano possa fazer num futuro, próximo, com a Inteligência Artificial. Uma série de medos pode envolver nossa mente e impedir avanços nessa área. O discernimento sobre prós e contras é que fará a diferença nas escolhas que trarão  benefícios para a humanidade.”

 

Ficção? Não. Realidade

 

Você pode imaginar que ao seu lado, em um futuro não muito distante, pode estar um robô com características humanas? Não apenas na aparência, mas capaz de conversar sobre vários assuntos, lhe fazer perguntas, exprimir feições de amor e raiva e até mesmo reconhecê-lo com um toque ou aproximação facial. Pois é. Estamos mais próximos dessa realidade do que jamais concebemos.

 

Você está preparado para conviver com androides inteligentes?

 

A Arábia Saudita concedeu em 2017, oficialmente, o primeiro título de cidadania a um... robô! Acredite: é o primeiro robô da história a ter nacionalidade e direitos como uma pessoa, gerando muitos questionamentos e debates em campos que vão da Bioética ao Direito. Mais: no início do ano, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que recomenda a criação de um código civil para robôs, capaz de disciplinar e normatizar áreas como a inteligência artificial e os carros autônomos.

 

O robô em questão foi "batizada" de Sophia e em um vídeo divulgado pela empresa* desenvolvedora do androide ela se declara capaz de, quando ficar mais inteligente, cuidar de idosos, ensinar crianças e até mesmo ajudar ativamente nas pesquisas científicas e na administração de governos e empresas. Estamos preparados para essa convivência e interação? Quais serão, na prática, os limites da atuação dos androides e como definir quando a interferência de sua inteligência artificial será, ou não, benéfica para a comunidade?

Sophia possui um "cérebro" equipado com inteligência artificial, capaz de processar dados visuais, reconhecer feições, manter conversas simples e demonstrar diversas expressões faciais.

 

Ficam no ar várias perguntas: direitos robóticos? direitos humanos? Como será a avaliação ética das possibilidades da inteligência artificial, que reúne em sua programação habilidades sociais, dados de comportamento e reações humanas? Como um computador será capaz de pensar como nosso cérebro e nos conduzir para um futuro melhor, sem riscos eventuais? As máquinas deverão substituir integralmente a mão de obra humana em inúmeras áreas onde hoje a presença do ser humano se torna imprescindível? Um computador poderá ser programado para optar no seu lugar, restringindo seu direito de decidir?

 

As discussões e questionamentos éticos e bioéticos sobre o tema deverão se estender por muitos anos... felizmente.

 


 

* Hanson Robotics, com sede em Hong Kong.

 

Imagem da home: coluna.tech