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A Bioética no ensino médio, no fundamental, na pré-escola. Educadores se reuniram em evento da SBSP para refletir sobre o tema

 

 

"É necessário antecipar a abordagem, o pensamento e os conceitos morais relacionados a vários temas de Bioética muito antes do ensino médio". Esta foi uma das principais conclusões, unânime entre palestrantes e participantes, de um encontro realizado pela Sociedade de Bioética - Regional São Paulo, sob o mote "Encontro de Bioética Avançado" (EBA). O evento, apoiado pelo Grupo de Pesquisa em Ética e Bioética da Universidade Presbiteriana Mackenzie (GEFT), aconteceu no auditório da instituição, neste 16 de fevereiro.

Na palestra central "Discutindo Bioética no Ensino Médio: Uma Experiência do Brasil", ministrada por Paulo Fraga da Silva, especialista em Bioética pela Universidade de São Paulo e líder do grupo de pesquisa em Ética e Bioética da Universidade Presbiteriana Mackenzie, e por Flávio César de Sá, médico e professor da Unicamp, demonstrou-se a urgente necessidade de levar adiante grupos capazes de envolver os alunos, de todos os níveis escolares, em questões éticas e morais. O encontro também contou com a presença de Reinaldo Ayer de Oliveira, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB).

Em um breve histórico sobre a ideia de estruturar grupos dedicados ao fomento de temas em Bioética, Flávio de Sá contou que, em 2001 a cátedra de Bioética da Universidade de Haifa (Israel) propôs à Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) a formação de uma rede internacional de unidades de ensino e pesquisa no campo da Bioética, de início abordando exclusivamente Ética Médica. Entretanto, rapidamente o foco migrou para Ética Médica & Bioética e a rede se expandiu, propondo a realização de trabalhos relacionados ao tema Bioética na área da educação. Assim, surgiu a proposta de um currículo mínimo de Bioética para a educação infantil e ensino médio, sugerida pela unidade da rede localizada em Nápoles, na Itália. O documento, então publicado, estabeleceu uma forma de discutir bioética com crianças e adolescentes, com versões adequadas e que pudessem ser utilizadas por outros países.

O palestrante da Unicamp lembrou que a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos, da Unesco, no seu artigo 23, a respeito da informação, formação e educação em Bioética, preconiza que "para alcançar uma melhor compreensão das implicações éticas dos avanços científicos e tecnológicos, em especial para os jovens, os Estados devem envidar esforços para promover a formação e educação em Bioética em todos os níveis, bem como estimular programas de disseminação de informação e conhecimento sobre Bioética. Os Estados devem estimular a participação de organizaçoes não governamentais, internacionais e regionais para promover a informação e educação em Bioética em todos os níveis". E neste ponto, o professor enfatizou que o artigo determina o que deve ser feito com relação ao ensino da Bioética, especialmente voltado para os jovens.

"Com base na análise dessa regulamentação e da proposta da cátedra da Unesco, tentei criar alguma forma capaz de me aproximar do ensino da Bioetica direcionado a estudantes do ensino médio; nessa época, surgiu a ideia de envolvimento do Conselho Regional de Medicina do Estado de Sao Paulo (Cremesp) neste desafio", conta Flávio, "pois a luta pela implementação regular do projeto - de levar o debate sobre questões de Bioética aos estudantes de várias escolas - envolve a temática saúde". Sabe-se que ampliar este conceito significa estimular a reflexão sobre diversas questões relacionadas à saúde, incluindo terminalidade de vida, aborto, violência contra a mulher e tantos outros pertinentes para a formação ética e moral dos jovens.
 
Para Paulo Fraga, "a discussão de valores em sala de aula sempre é muito complexa, sobretudo por conta do professor, muitas vezes  inseguro e despreparado para abordar estas questões." Ele destacou o empenho especial de uma professora, doutora em Filosofia, atuante em região de periferia de São Paulo, com alta vulnerabilidade social, cujo grande interesse pela Bioética a fez incluir a matéria no planejamento curricular do ensino médio das escolas aqui do Estado, iniciativa inédita que resultou na produção de cadernos de Bioética direcionados para a segunda e terceira séries do ensino médio. A professora se aproximou então do Cremesp e do Centro de Bioética da instituição, na época coordenado por Reinaldo Ayer (atualmente vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética - SBB), e levou os estudantes à sede da instituição para discutir temas de Bioética, impressionando todos os presentes pelo nível de ambientação dos alunos, suas reflexões, conscientização e debates.

"A partir daí, nos habituamos a sistematizar os encontros e o contato com as escolas de forma mais permanente, participando das reuniões de planejamento curricular", relata Paulo. "Sentimos as dificuldades que nós, pesquisadores, temos para conviver em outros ambientes que não a universidade..." A iniciativa resultou num enorme aprendizado para todos, pois foi percebida a necessidade de se estabelecer princípios e conceitos filosóficos com os alunos, cuja realidade vivenciada na periferia é muito diferente de outras regiões da cidade.  

Durante as palestras, dois aspectos contextuais chamaram a atenção com relação ao ensino da Bioética: o primeiro, é que - ainda - ela é matéria quase exclusiva de reflexões e discussões na grade das Universidades, gerando um "compromisso" com a escola superior;  segundo, que esse paradigma precisa ser alterado, ou seja, é preciso estender essas informações e debates aos estudantes de todos os níveis escolares, até mesmo aqueles na tenra idade e não somente aguçar o senso moral dos alunos mais velhos.

E mais: todo o trabalho desenvolvido pelos grupos que levam a Bioética para as escolas mostrou que é possível discutir temas éticos e complexos, mesmo entre estudantes de opiniões bem divergentes, com diálogo aberto, tornando-se compreensível para o outro, mas com nível de argumentação e de respeito impressionantes. Para os palestrantes, oferecer essa possibilidade de discussão no meio escolar tem sido extremamente gratificante para os dois lados: para os alunos, que se sentem ouvidos e estimulados a refletir e debater, e para os participantes deste Programa, recompensados por possibilitar essa integração, independente do nível e do estágio em que se encontram os alunos. O "ouvir o outro" é fundamental para o crescimento de ideias e a reavaliação de posturas.    


Reinaldo Ayer de Oliveira, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB), que já esteve à frente do Centro de Bioética do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), um dos idealizadores do projeto de Bioética nas escolas e participante ativo deste trabalho, relata: "Impressiona a disposição e a capacidade que os alunos têm para as discussões, muitos deles de regiões carentes da cidade, que vivenciam as diferenças entre a periferia e o centro, com dificuldade de acesso à educação e à cultura, percebendo o mundo dividido pelas condições sociais dos indivíduos. E os estudantes têm consciência dessa 'ponte' que separa os dois 'mundos' e que impacta na qualidade de vida, na qualidade do ensino, na qualidade de saúde". E questiona: "Se temos a possibilidade de acesso a uma cultura que trata de reflexões éticas e morais, por que essas discussões não podem ser levadas a pessoas de comunidades que têm dificuldade para obter esse acesso?"

Para Ayer, "o destino da Bioética é exatamente levar a reflexões considerando o que de mais importante está num ser humano e que se traduz nas relações. Mostra que por meio de práticas sociais éticas é possível transformar a sociedade." E completa: "O efeito da iniciativa que leva reflexões e discussões sobre s valores da Bioética no campo da Filosofia para o ensino médio, já é incrível. Mas, seria importante, também, a produção de um material didático, com literatura voltada para essa população, mostrando quais os temas éticos poderiam ser abordados para estimular debates com os estudantes. Um projeto piloto poderia ser apresentado à Secretaria da Educação sobre um programa de informação e discussão em bioética para o ensino médio, tanto nas instituições públicas quanto particulares."  

 


Ao final do encontro, o presidente da regional paulista da Sociedade de Bioética, Edson Umeda (foto acima), ressaltou a importância da participação dos presentes nas discussões de um tema tão relevante e que exige esforços para estender o pensamento ético e moral a todos os estudantes. "Com a realização deste evento, percebemos as dificuldades que os professores de Bioética têm na graduação, principalmente na Medicina, área que atuo, e de como esses alunos chegam despreparados para o debate de vários temas no campo da Bioética. É  imprescindível que essas reflexões possam ser iniciadas já no ensino médio, no ensino fundamental e até mesmo na pré-escola." Mesmo demonstrando preocupação com as mudanças na grade curricular impostas pelo governo atual, que pretende abolir algumas situações imperiosas para manter a base das discussões na formação moral do indivíduo, Umeda enfatizou que "as discussões e os depoimentos dos presentes foram extremamente ricas, especialmente envolvendo sugestões e ideias para a formação ética dos alunos que, no futuro, serão atuantes na própria sociedade".

 

 

Imagens: SBSP