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A saúde e o exercício da Medicina na Alemanha


Em uma entrevista informal, durante um almoço oferecido pela médica Regina Parizi em sua residência, o médico cardiologista alemão Pascal Wollin abordou algumas curiosidades sobre o atendimento no sistema de saúde e o exercício da Medicina no seu país. O objetivo do bate-papo com o jovem médico, longe da pretensão de apenas comparar o sistema alemão de saúde com o brasileiro (mesmo porque não há como compará-los), foi simplesmente registrar informações que venham contribuir com a nossa visão de atendimento na saúde em outro país e - talvez - estimular uma reflexão sobre essa assistência e o exercício da Medicina.

Antes de mais nada, é preciso fazer jus ao nosso Sistema Único de Saúde (SUS), um programa ousado que disponibiliza, há 30 anos, o atendimento gratuito de saúde a toda a população, indiscriminadamente, e que não tem semelhança com nenhum programa de saúde oferecido em outros países, principalmente os chamados de primeiro mundo. O nosso SUS é referência na atenção primária, apesar de todas as dificuldades que enfrenta.

Nosso SUS tem falhas? Sim, muitas. Mas a principal delas, e que impacta diretamente na sua estrutura de atendimento àqueles que não têm acesso à saúde suplementar, é o vergonhoso financiamento do setor e o mau direcionamento dos parcos recursos fornecidos pelo governo à saúde.

Na Europa, a saúde não é padronizada, ou seja, mesmo considerando que a maior parte dos países pertence à União Europeia, cada um deles define as regras de funcionamento de seu sistema de saúde.

Wollin explica que o seguro de saúde na Alemanha é obrigatório para toda a população, inclusive estrangeiros que moram e vivem no país. Já a partir daí mostra-se como um sistema totalmente diferente do brasileiro, e com muitos detalhes. Por exemplo, ele é dividido em seguro de saúde estatal e seguro de saúde privado, e a escolha de um ou de outro vai depender da condição socioeconômica do indivíduo, ou seja, sua renda anual. Não é você que escolhe qual o seguro que quer, mas seus ganhos (e se você está empregado formalmente) é que determinam qual deles você poderá contratar, o estatal ou o privado. Em ambos você contribui. Com valores diferenciados, mas contribui.

O entrevistado detalhou dois pontos importantes: o seguro de saúde privado pode ter uma cobertura de serviços mais ampla do que o seguro estatal, entretanto isso não significa que ele é pior do que o privado. Além disso, o seguro de saúde estatal na Alemanha beneficia também a família do segurado sem custos adicionais.   

Após uma visita rápida ao Hospital do Servidor Público Estadual, o jovem médico alemão levantou alguns outros pontos que diferenciam e caracterizam o atendimento de saúde no seu país e que valem destaque:

- Rede hospitalar no seguro saúde:  os hospitais que atendem a população é a mesma, independente do tipo de seguro saúde que o indivíduo tenha, ou seja, não há diferenciação no atendimento. Contudo, alguns procedimentos médicos o seguro saúde básico não cobre.

- Distribuição dos médicos e dos hospitais: é feita de forma bem estruturada, ou seja, todas as regiões, mesmo aquelas não ligadas aos grandes centros, possuem hospitais e profissionais. A distribuição dos médicos é totalmente descentralizada. Todos os hospitais são basicamente os mesmos em todas as regiões, oferecem os mesmos equipamentos e tratamentos esteja ele localizado no centro ou na periferia.

- Médicos generalistas (ou de família): atendem grande parte da população fora dos grandes centros que, eventualmente, encaminham para os especialistas.

- Médicos estrangeiros: os médicos estrangeiros são bem-vindos na Alemanha, embora - como o entrevistado mora em Berlim, não perceba tanto a presença deles em grandes centros. A revalidação do diploma em Medicina é necessária, como é a regra em todos os países nos quais o profissional estrangeiro queira atuar.

- Aborto: em fevereiro deste ano o governo alemão alterou a lei do aborto, permitindo a interrupção da gravidez até o final da 12a semana de gestação, quando há perigo para a saúde da mãe ou da criança e em casos de gravidez indesejada, anencefalia e má formação genética que impeça a vida do bebê. Mas por questões éticas e pessoais, os médicos também podem decidir em realizar ou não o procedimento.

Ao final do encontro, Wollin mostrou-se agradecido pela acolhida e privilegiado por conhecer um pouco do Brasil e de nosso sistema hospitalar, pois já esteve na Amazônia a passeio e manteve contato com a população ribeirinha local, demonstrando ter gostado da nossa gente e do nosso país.