notíciassbb


Dia Mundial da Água 2019. E o saneamento, como vai? Vai mal, muito mal... É preciso garantir acesso à água potável para todas as pessoas!

Com a frase "Não deixe ninguém para trás", dirigentes da Organização das Nações Unidas (ONU) pediram na última sexta-feira (22/03), quando é lembrado o Dia Mundial da Água, que países se preocupem, de fato, em disponibilizar o acesso das pessoas aos serviços de água potável e saneamento básico.

Sabe-se, de antemão, que seria até um problema que poderia ser minimizado em curto e longo prazos, mas sabe-se, também, que interesses políticos sempre se sobrepõem às necessidades da população, principalmente comunidades mais carentes e que moram em regiões "esquecidas" pelos governos. Promessas de candidatos não se transformam em realidade quando eleitos, na grande maioria das vezes. Isso é fato, e não fake...

Você sabia que, hoje, segundo relatório da ONU, mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo vivem sem água própria para seu consumo? Pior: quando cita "instalações de saneamento com segurança", o número salta para 4,5 bilhões, representando 60% da população mundial!

De acordo com a Deutsche Welle (empresa pública alemã de notícias, com representação no Brasil), o principal limitante para o acesso da água limpa é a pobreza... Isso não é novidade... a novidade fica por conta do baixo custo por litro que pagam as casas urbanas dos mais ricos, enquanto as pessoas mais pobres pagam caro para comprar água de caminhões pipa, gastando 10 a 20 vezes mais.    

O relatório da Organização alerta: todos os desafios e esforços para melhorar a oferta e disponibilidade de recursos hidricos podem ir abaixo com a preocupante degradação ambiental associada ao crescimento populacional e às mudanças climáticas.



Acompanhe, a seguir, íntegra de texto de Giuliana Moreira*, publicado originalmente no site da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, por ocasião deste 22 de março, Dia Mundial da Água.

"Água potável e saneamento"

O Brasil possui mais água doce que qualquer outro país do mundo – 12% do volume total do Planeta. Isso cria uma falsa premissa de que o suprimento estável de água de boa qualidade estará sempre disponível. No Brasil, embora haja abundância de água, em comparação com outros países, existe uma grande variedade de riscos relacionados a água, o que representa uma grande incerteza na disponibilidade de água doce para a população. Além disso, os desafios relacionados a água causam múltiplos efeitos sobre o meio ambiente e a economia.

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6), proposto pelas Nações Unidas, visa assegurar a disponibilidade e o manejo sustentável da água e do saneamento para todos. Mas, em 2030, haverá água para todos os brasileiros?

O tema do Relatório Mundial das Nações Unidas sobre Desenvolvimento dos Recursos Hídricos de 2019 e tema do Dia Mundial da Água deste ano é “Não deixar ninguém para trás”. Este tema é central no compromisso da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, que visa permitir que todas as pessoas em todos os países se beneficiem do desenvolvimento socioeconômico e a atinjam a plena realização dos direitos humanos.

O direito humano a água e saneamento foi reconhecido pela ONU em dezembro de 2015, uma vez que eles são indispensáveis para prover meios de subsistência saudáveis e fundamentais para manter a dignidade de todos os seres humanos.

O setor privado desempenha um papel fundamental para auxiliar no fornecimento de serviços de abastecimento de água e saneamento para todos os cidadãos, pois nem sempre os governos sozinhos podem assumir toda a responsabilidade e frequentemente não possuem recursos técnicos e financeiros suficientes disponíveis.

O papel dos governos e agências de água é focado no estabelecimento de políticas e regulamentos, porém o setor privado pode contribuir muito para a promoção de ações e atitudes sustentáveis em suas práticas de negócios. A iniciativa privada pode contribuir muito para endereçar os desafios hídricos através do desenvolvimento de soluções e tecnologias inovadoras, além de possuir um papel de grande influenciador na sociedade, com o potencial de gerar uma mudança de comportamento dos indivíduos e uma conscientização em relação ao uso eficiente da água, podendo ter uma forte influência sobre a formulação de políticas.

A ONU reconheceu em 2000 o imenso potencial de contribuição das empresas para a adoção de valores e princípios universais alinhados a direitos humanos, a preservação ambiental e com o estímulo de práticas de responsabilidade corporativa. Criou-se então o Pacto Global (United Nations Global Compact), uma iniciativa de caráter voluntário que fornece métricas para se promover o crescimento sustentável e envolve o setor privado em programas alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). No Brasil, a iniciativa foi criada em 2003 e conduz projetos no país por meio dos seus Grupos Temáticos (GT), divididos atualmente em: Água, Energia & Clima, Alimentos & Agricultura, Direitos Humanos & Trabalho, Anticorrupção e ODS. Além disso, existe a Comissão de Engajamento e Comunicação, que dá as diretrizes para as divulgações feitas pelos membros sobre o Pacto Global e sobre os ODS. Esses grupos são formados por representantes das empresas e organizações que integram a Rede Brasil.

O Grupo Temático Água visa colaborar para a construção de uma agenda de governança em água, engajando o setor privado na adoção de práticas sustentáveis em suas operações e em suas cadeias de abastecimento para promover o uso eficiente do insumo. Atua totalmente em consonância com o ODS nº 6, que busca assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para todos e todas até 2030.

Para o contexto brasileiro, o alcance do ODS 6 é desafiador. Segundo estudo Perdas de Água 2018, realizado pelo Instituto Trata Brasil com base nos dados do Sistema Nacional de Saneamento (SNIS), estima-se que cerca de 35 milhões de cidadãos não têm acesso a água potável, enquanto que 100 milhões não possuem saneamento adequado. Nesse contexto, as empresas podem desempenhar um papel fundamental neste cenário ao investir em tecnologias e soluções inovadoras para a gestão da água dentro das suas operações e em sua cadeia de valor. Outra frente de envolvimento é a participação em ações coletivas, que proporcionem a oportunidade para que as organizações se engajem com uma variada gama de partes interessadas a fim de criar projetos em conjunto. Além disso, a necessidade de buscar resiliência a situações de severa escassez hídrica gera oportunidades de negócios em mercados e para serviços e produtos inovadores.

No geral, o avanço tanto no acesso a água quanto a saneamento tem sido muito lento no país nas últimas décadas. Doze anos após a Lei do Saneamento Básico (lei 11.445) entrar em vigor no Brasil, metade da população do país continua sem acesso a sistemas de esgotamento sanitário.

A evolução dos serviços de água e saneamento do país é muito lenta, trazendo não apenas problemas sociais ao país, mas também ambientais, financeiros e de saúde, já que é um fator importante na disseminação de doenças.

O ODS 6 prevê a universalização do saneamento até 2030, além disso, um plano nacional foi elaborado e lançado em 2014 pelo governo federal, com metas de universalização dos serviços (água, esgoto, resíduos e drenagem) até 2033. Porém, segundo estudo Burocracias e Entraves no Setor de Saneamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), com o ritmo atual de investimentos, o Brasil apenas conseguirá universalizar o atendimento de água em 2043 e de esgoto, em 2054.

A Agenda 2030 traz 17 objetivos de desenvolvimento sustentável que são indivisíveis e integrados. Ao deixar de cumprir as metas do ODS 6, pessoas de diferentes grupos são “deixadas para trás” por diferentes motivos. A falta de acesso a água e a saneamento afeta a vida das mulheres (ODS 5), reforçando a desigualdade de gênero no Brasil. Os impactos da falta de saneamento causam discriminação, exclusão, marginalização e violência contra todas as mulheres e meninas.

Segundo estudo lançado pela BRK Ambiental, em parceria com o Instituto Trata Brasil, intitulado O Saneamento e a Vida da Mulher Brasileira, uma em cada quatro mulheres não tem acesso adequado a água tratada, coleta e tratamento dos esgotos e a universalização dos serviços tiraria imediatamente 630 mil mulheres da pobreza, a maior parte delas negras e jovens.

Segundo o estudo, hoje no país 27 milhões de mulheres – uma em cada quatro – não têm acesso adequado a infraestrutura sanitária e o saneamento é variável determinante em saúde, educação, renda e bem-estar. O estudo foi realizado com base em dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos Ministérios da Saúde, Educação e Cidades. O estudo foi feito pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a BRK Ambiental e apoio do Pacto Global, conduzida pela Ex Ante Consultoria.

A melhoria no acesso a água e a saneamento está entre os principais obstáculos para a realização dos direitos humanos, assim como para o alcance dos 17 objetivos de desenvolvimento sustentável da Agenda 2030.

Hoje, no Dia Mundial da Água, chamamos a todos para contribuir para melhorar a gestão dos recursos hídricos e criar ações coletivas para alcançar a universalização do acesso a água potável e saneamento seguros e acessíveis para todos, a fim de contribuir para erradicar a pobreza e construir sociedades pacíficas e prósperas, garantindo que “ninguém será deixado para trás” no caminho rumo ao desenvolvimento sustentável.

* Giuliana é assessora de Gestão Corporativa da Água na Rede Brasil do Pacto Global da ONU e pesquisadora no Pacific Institute/CEO Water Mandate.


 

Fontes:
OutraSaúde

ONUBrasil

Deutsche Welle Brasil

 

Imagem: pxhere.com