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O surto de sarampo no país: SBSP promove reflexão sobre o tema com a participação de Dirceu Greco (SBB) e Wladimir Queiroz (Emílio Ribas)

Dirceu Greco e Wladimir Queiroz ao final do encontro: interação com

os inscritos sobre questões relacionadas ao sarampo

 

 

 

"Autonomia Individual e Vulnerabilidade Coletiva: o Novo Surto de Sarampo" foi o tema central de um encontro realizado pela Sociedade de Bioética - Regional São Paulo (SBSP) neste 01 de setembro de 2019, no Centro de Promoção e Reabilitação em Saúde e Integração Social (Clínica - Escola PROMOVE - São Camilo), no Ipiranga (SP).

 

Uma ampla análise sobre a atual epidemia de sarampo no Brasil, que assola principalmente o Estado de São Paulo, foi detalhada pelos palestrantes convidados: Dirceu Bartolomeu Greco, presidente da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB) e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG); e Wladimir Queiroz, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e professor da UNILUS.

 

Após uma retrospectiva histórica da primeira entrada do sarampo no país, Queiroz avaliou a situação atual da epidemia e chamou a atenção dos prováveis fatos que levaram ao ressurgimento da doença no Brasil, entre eles, movimentos contra a vacinação, que acreditam ser ela desnecessária e de provocar eventos adversos, e a proliferação de textos divulgados na internet e redes sociais, com informações não científicas sobre a "inutilidade" da vacina. Para ele, "além de motivos filosóficos e religiosos, como observado no judaísmo ultraortodoxo, que impedem a imunização, orientações médicas para a não vacinação também fazem parte desse comportamento." 

 

Queiroz abordou a questão da aplicação de apenas a primeira dose da vacina: "mais de 40% das crianças não toma a segunda dose, impedindo a proteção real e total contra a doença", afirmou. Segundo o palestrante, estudos mostram que é preciso que mais de 95% da população esteja vacinada para que a proteção contra o sarampo seja eficaz. Ele mostrou que, no Brasil, dados recentes apontam que mais de 10.800 casos estão sendo investigados, cerca de 2.330 estão confirmados e pouco mais de 1.200 foram descartados. 

 

 

Para o presidente da SBB a dificuldade de acesso às vacinas também
desestimula os pais a imunizar seus filhos

 

Dirceu Greco, ao referir-se à situação caótica em que o país se encontra e que impacta negativamente em vários setores, especialmente na desconstrução da Saúde e da Educação, chamou a atenção para a questão que envolve o bem coletivo (a dificuldade de acesso à vacinação) e também a autonomia do indivíduo (movimento antivacina). Para ele, frequentemente a tomada de decisão de não vacinar os filhos não é pela falta de informações confiáveis, mas muitas vezes por dificuldade, dos pais ou responsáveis, de ter acesso às vacinas disponíveis. Some-se a isto também, mas em menor escala, por pura escolha pessoal." E completa: "Esses são os principais fatores que facilitam a reintrodução da doença na comunidade."

 

O presidente da SBB faz um alerta que merece muita atenção: "O Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta sérios problemas de subfinanciamento e também de gestão, e que repercutem na grave situação epidemiológica do país, por pelo menos dois motivos: primeiro, a PEC-95 que limita e congela os gastos públicos durante 20 anos, com impacto drástico nos recursos direcionados à saúde; segundo, embora a Organização Mundial de Saúde determine a cobertura universal de saúde, essa cobertura não supõe acesso universal e sem custo para todos que dele necessitem, e aparentemente existe movimento no Brasil para limitar o escopo do SUS. Isto diminuirá mais ainda o financiamento e, com isso, afetará programas de alta qualidade hoje disponíveis."

 

Greco acredita que, para o enfrentamento na queda das coberturas vacinais, é preciso considerar o seguinte:

 

1) investir no aumento do número de vacinas que poderiam ser associadas em uma aplicação única;
2) compensar a dificuldade de acesso com medidas que tornem viável a imunização de todos, sem exceção;
3) enfrentar as fake news na saúde com informações claras, constantes, objetivas e de fácil compreensão;
4) reforçar que os ganhos com as políticas de vacinação somente se manterão com sua perenidade; e, por fim, e talvez a questão mais importante...
5) vontade política e financiamento adequado para que todos os itens acima se concretizem, mesmo em contextos com recursos aparentemente escassos...

 

Para o presidente da SBB (parafraseando o historiador grego Tucídides), "a justiça só prevalecerá quando aqueles afetados e indignados pela falta de justiça forem capazes de se emanciparem para a luta de seus direitos, sem fronteiras."

 

Ao final, foi consenso entre os palestrantes que os desafios na saúde são imensos e há necessidade urgente da implementação de modificações globais que permitam reduzir as obscenas disparidades no acesso da população à saúde. Assim, é necessário que nos associemos, todos, para enfrentar diuturnamente esta situação. E, neste ponto, é inquestionável a importância da educação e da disseminação de informações éticas e esclarecedoras, de amplo alcance, principalmente quando o tema é saúde.

 

O evento contou com as presenças de Edson Umeda, presidente da SBB-Regional SP; Reinaldo Ayer de Oliveira, vice-presidente da SBB; Margareth Priel, Tesoureira da SBSP; Carlos Ferrara, membro da SBSP e pró-reitor acadêmico do Centro Universitário São Camilo; Sonia Pereira, também membro da SBSP; Regina Parisi, ex-presidente da SBB, além de membros do Centro Universitário São Camilo, estudantes e outros profissionais inscritos para assistir ao encontro.

 

 

Ao fundo, Edson Umeda, presidente da Sociedade de Bioética, Regional São Paulo

 

 

Fotos: SBSP