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Carta à Secretária Estadual de Saúde de Santa Catarina sobre o colapso no Sistema de Saúde do Estado

Florianópolis, 02 de abril de 2021

 

V. Exª Carmen Zanotto - Secretária Estadual de Saúde de Santa Catarina

 

Prezada Senhora

 

Estamos assistindo estarrecidos ao colapso do sistema de saúde de nosso Estado, apesar de todas as recomendações emanadas por parte da Universidade Federal de Santa Catarina, em especial por seu Departamento de Saúde Pública e seu Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva, desde o início da pandemia de Covid-19. Recomendações essas que vêm sendo negligenciadas pelo poder público seguidamente, levando-nos à situação dramática em que nos encontramos.

 

A situação dos hospitais chega a ser calamitosa. A fila de espera por vagas em UTIs e a gestão desta fila pelo que se pode acompanhar até aqui não condizem com o que se espera de um governo que se diz preocupado em proteger a saúde e a vida de sua população. Entendemos como inadmissível uma fila de espera para UTI, pois aqueles que precisam de tal atendimento já se encontram, por definição, em uma situação de emergência e risco de morte. Por esse mesmo motivo não é possível dar atendimento adequado para esses pacientes em UPAs, emergências e enfermarias. Essa impossibilidade fica evidente quando finalmente, nesta semana apenas, começam a ser recebidos nas UTIs os pacientes que estavam na fila da regulação estadual. Observa-se que vários pacientes, tanto jovens quanto idosos, estão chegando com múltiplas disfunções orgânicas e muitos já fora de qualquer possibilidade terapêutica, resultando em mortes que poderiam ter sido evitadas.

 

Estima-se que mais de 250 catarinenses já tenham falecido aguardando leitos de UTI. O Estado deve garantir que a regulação encaminhe para ocupar as preciosas vagas de UTIs os pacientes que ainda têm chances de sobrevivência. O serviço de regulação está recebendo a devida atenção e apoio? Acrescente-se a esse questionamento, outros: por que apenas em 26 de março de 2021, quando a espera por leitos em UTI já chegava a quase quatro centenas de pacientes, a Secretaria de Estado da Saúde passou a recomendar a adoção do protocolo mencionado na Deliberação 035/CIB/2021, que no HU/UFSC se adotou muito antes dos leitos se tornarem escassos? Como foi feita a gestão da fila de espera até então, ou melhor, essa gestão vinha sendo efetivamente realizada?

 

Os fatos que acompanhamos por meio dos profissionais que atuam nas UTIs de nossa cidade evidenciam que não é correta a afirmação difundida pelo governador e pelo até então secretário da saúde, segundo a qual os pacientes estariam sendo tratados e corretamente atendidos nas emergências e UPAS, pois nesses espaços não existem condições para se realizar os cuidados terapêuticos requeridos nos casos graves da doença.

 

Os profissionais de saúde estão sobrecarregados pelo excesso de demanda, pela falta de profissionais, bem como pelo sofrimento moral que encaram cotidianamente. Sentem-se esgotados, física e mentalmente, e compartilham conosco o sentimento de impotência que estão vivenciando frente ao caos que poderia ter sido evitado com uma gestão pública mais prudente e responsável. Sentem-se abandonados pelo Estado e estão lidando com essa tragédia moral na mais completa solidão. Sabem da iminência da falta de medicamentos fundamentais para o atendimento aos pacientes mais graves (anestésicos, sedativos e bloqueadores neuromusculares) e nos alertam para um apagão neste quesito que resultará em ainda mais mortes e sofrimento, caso medidas mais restritivas para a contenção do vírus não sejam imediatamente adotadas. Valem-se de manifestações como esta para expressar tais angústias publicamente, porque entendem que também “a população foi abandonada à própria sorte” (sic).

 

O Estado não pode continuar investindo em um discurso político de supostas estratégias preventivas miraculosas como “kit-Covid”. Já sabemos que essa não é uma alternativa terapêutica ou preventiva, mas a população acredita em seus governantes e continua se expondo ao contágio e à morte. Pensam, falsamente,estar protegidos por medicamentos que já demonstraram ser absolutamente ineficazes e causadores de efeitos colaterais seríssimos.

 

Vimos por meio desta carta exigir respeito com a população e com os profissionais de saúde que se encontram na linha de frente, no Samu, nas UPAs, nas UTIs e também nas UBS. Perante esse quadro dramático, não é admissível que o Estado continue permitindo atividades não essenciais, menos ainda a chegada de turistas. É imperioso adotar medidas imediatas de restrição de circulação na forma de lockdown, por tempo suficiente para termos os efeitos epidemiológicos necessários, como já foram cientificamente registrados e comprovados em outros países e mesmo em outras cidades brasileiras. Sem esta medida, nenhuma outra será capaz de reduzir significativamente a catástrofe que estamos vivenciando.

 

Para além disso, é necessário prover prontamente os serviços de saúde com os medicamentos e demais insumos necessários para o atendimento aos pacientes; divulgar informações confiáveis e cientificamente validadas; desmistificar o uso de medicamentos ineficazes para a covid-19; repetir, incansavelmente, as informações sobre a importância do uso de máscaras e do distanciamento social; investir em verdadeiro controle epidemiológico com a massificação dos testes de detecção do coronavírus, bem como em uma rápida e eficaz distribuição de vacinas. Além de todas estas recomendações exaustivamente apresentadas pela ciência, alertamos para a necessidade fundamental de uma regulação competente da fila de pacientes em espera por UTIS; da necessidade proteger e apoiar os profissionais de saúde que estão na linha de frente; e ainda, da necessidade de informar com total transparência a real situação que está atravessando o sistema de saúde em nosso Estado.

 

SOCIEDADE BRASILEIRA DE BIOÉTICA – REGIONAL DE SANTA CATARINA

NÚCLEO DE ESTUDOS EM SOCIOLOGIA, FILOSOFIA E HISTÓRIA DAS CIÊNCIAS DA SAÚDE / UFSC

NÚCLEO DE PESQUISAS EM BIOÉTICA E SAÚDE COLETIVA / UFSC

NÚCLEO DE ÉTICA PRÁTICA/ UFSC PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SAÚDE COLETIVA/UFSC

DEPARTAMENTO DE SAÚDE PÚBLICA/ UFSC