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SBP divulga nota sobre imagem do presidente da República com criança fardada segurando arma de brinquedo

 

Em Nota divulgada em 30 de setembro de 2021, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) se manifestou sobre uma imagem do presidente da República, amplamente veiculada na mídia, ao lado de uma criança vestindo farda e segurando uma arma de brinquedo. O texto ratifica a importância da população e das autoridades no respeito à legislação que exige a proteção dos direitos de crianças e adolescentes.

 

No documento, a SBP lamenta que cenas como as exibidas às vésperas do Mês da Criança sejam cada vez mais frequentes e "conclama as autoridades para uma reflexão sobre os efeitos destas ações de mídia e de marketing, que devem se basear na legislação e na ética, e nunca serem maiores que o compromisso com a dignidade da população brasileira."

 

A Sociedade Brasileira de Bioética (SBB) compactua, de forma irretocável e contundente, a Nota da Sociedade Brasileira de Pediatria, transcrita, na íntegra, a seguir...

 

NOTA AOS BRASILEIROS ARMA NÃO É BRINQUEDO!


Diante da divulgação, nesta quinta-feira (30), de imagens em que o presidente da República, Jair Bolsonaro, aparece com uma arma de brinquedo em punho ao lado de uma criança vestida de soldado, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) reitera a importância de a população, em especial autoridades e personalidades públicas, respeitarem a legislação que exige a proteção dos direitos dessa faixa etária.


O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) garante à criança e ao adolescente o direito ao respeito, que consiste na inviolabilidade da sua integridade física, psíquica e moral, abrangendo, entre outros aspectos, a preservação de sua imagem e valores. Além disso, estabelece como dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.


Vale lembrar, também, dos efeitos negativos que as armas de brinquedo surtem sobre o desenvolvimento e a construção do caráter enquanto cidadão do futuro. Ao contrário dos adultos, elas são incapazes de distinguir entre uma arma real e armas de brinquedo. Estudo recente mostrou que quase 60% dos integrantes de um grupo de crianças com idades entre 7 e 17 anos não souberam distinguir armas reais de armas de brinquedo. Não é por acaso que a cada 60 minutos uma criança ou adolescente morre em decorrência de ferimentos por arma de fogo no Brasil.


Neste sentido, a SBP lamenta que cenas como as exibidas às vésperas do Mês da Criança sejam cada vez mais frequentes. Não se trata de uma discussão ideológica ou sobre a liberdade da posse, ou não, de arma pelos adultos. O que está em jogo é a vida e a integridade física e emocional de milhares de crianças e adolescentes. Por isso, os pediatras conclamam as autoridades para uma profunda reflexão sobre os efeitos destas ações de mídia e de marketing, que devem se basear na legislação e na ética, e nunca serem maiores que o compromisso com a dignidade da população brasileira.


Rio de Janeiro (RJ), 30 de setembro de 2021.


SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA

 

 

Em tempo

 

Nesta terça-feira, 5 de outubro, o Comitê de Direitos das Crianças, da Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou que "desaprova, nos termos mais eloquentes, o uso que o presidente [Jair] Bolsonaro faz de crianças, vestidas em roupas militares, segurando o que parece ser uma arma, para promover sua agenda política, o que ocorreu pela última vez em 30 de setembro de 2021". E vai além: "Práticas como a do presidente devem ser proibidas e criminalizadas, e aqueles que envolvem crianças em hostilidades devem ser investigados, processados e penalizados", enfatiza o Comitê.