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Discurso de posse de Elda Bussinguer, presidenta eleita da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB) para a gestão 2021 - 2023

 Acompanhe, a seguir, a transcrição da fala de posse da atual presidenta da Sociedade Brasileira de Bioética,

eleita no último dia 15 de outubro de 2021 em assembleia virtual, juntamente com outros membros da diretoria
que estarão à frente da entidade a partir deste momento até 2023.

 

 

Boa noite a todas e todos

 

Cumprimento inicialmente ao professor Dr. Dirceu Greco – presidente da SBB, aos demais membros da Diretoria que se despede, aos membros das Diretorias Regionais e demais sócios e sócias da SBB aqui presentes.

 

Quis o destino   que nossa posse acontecesse em um dia de tantas e importantes significações – 15 de outubro – Dia das Professoras e dos Professores.

 

A beleza da educação em seus plurisignificados nos aproxima e compromete.

 

Dirão alguns: mas não somos todos professores aqui.  E eu lhes direi:  devemos, na SBB, seja na condição de diretoria, seja de associados, assumir o comprometimento de mestres para a construção de um mundo mais ético, mais amoroso e mais plural.

 

A Bioética, um campo do saber ainda em processo de construção, estruturação e aperfeiçoamento, está sendo lapidada a muitas mãos, de forma a erigir uma teoria do conhecimento que tenha como valor epistêmico o homem em sua grandeza e dignidade.

 

Estamos fazendo parte desse momento histórico de construção das bases e do reconhecimento da Bioética não apenas para a ciência mas, sobretudo, para a sociedade.  

 

A educação se impõe como condição de responsabilidade e termos que nos comprometer com ela em nossos projetos e ações à frente da SBB.

 

Os cursos de Pós-graduação Stricto Sensu, as especializações, as graduações nas mais diversas áreas, com suas inserções transversais e cursos livres, nos convidam a um envolvimento pleno do compromisso de forjar estudantes sensíveis aos princípios mais caros da Declaração Universal de Bioética e Direitos Humanos.

 

Somos convidados ao desafio de aprender a refletir e tomar decisões pautadas em metodologias adequadas ao enfrentamento dos dilemas morais com os quais estamos cotidianamente nos encontrando no mundo da vida.

 

Estamos, assim, a partir de hoje, com essa posse, visceralmente ligados, por valores, por laços de afetos e por compromissos pessoais e institucionais.

 

Estamos envolvidos em um projeto de magnitude ímpar, considerando o momento histórico em que vivemos, de desconstrução constitucional do Estado Democrático de Direito que, por meio de lutas, tão duramente conquistamos.

 

O desmonte da democracia no Brasil, do esfacelamento das instituições e de nossos valores mais caros, precisam ser objeto de atenção redobrada e radical da Sociedade Brasileira de Bioética.

 

Não basta que nos solidarizemos com as famílias, amigos, amores, companheiros de trabalho e de vida dos mais de 600 mil mortos pela COVID no Brasil, e pelos vulnerabilizados pela fome e extrema pobreza e desigualdades.

 

É preciso denunciar e intervir, ocupando com nossas vozes e ações, os espaços públicos, privados e até as ruas, quando necessário.

 

Mesmo  que muitos de nós ainda não tenhamos tido a oportunidade  de nos encontrar, de nos abraçar e de  nos olhar com o olhar amoroso que devemos dirigir a todos os nossos contemporâneos, quis a  fortuna  que nos encontrássemos hoje, nessa noite de sexta-feira, tão distantes, nas mais diversas regiões de nosso gigante Brasil, para nos unir por sólidas teias de compromissos democráticos, éticos, de solidariedade e de verdade.

 

Não estou certa do que conseguiremos fazer, em nosso breve tempo de 2 anos à frente da SBB, tudo o que precisamos e desejamos fazer. Mas, estou certa de que haveremos de assumir compromissos típicos daqueles que assumem o lugar de educadores na construção de uma sociedade capaz de estruturar um futuro digno no qual a dignidade seja nosso maior valor.

 

Vamos construir as pontes que forem necessárias para nos aproximar de todos.


No que depender de nós, vamos desobstruir as pontes que porventura se encontrem obstacularizadas.

 

Vamos buscar sensibilizar pessoas e, por meio delas, instituições tão importantes aos Sistemas de Justiça, de Saúde, de Educação, de Segurança Social e tantos outros sistemas, de forma a buscarmos juntos a concretização dos valores éticos com os quais nos responsabilizamos neste momento.


Todas as pessoas e instituições são importantes, necessárias e desejáveis, em nosso projeto para esses 2 anos.

 

Buscaremos nos aproximar de todos, por laços de afetos e compromissos, tal qual devemos nos aproximar de cada um com quem compartilhamos esse momento histórico.

 

Vamos construir um projeto juntos, em uma arquitetura possível, em uma contemporaneidade que parece recrudescer em igualdade e justiça.

 

Agradeço de forma emocionada a cada um de vocês que até aqui construiu e sustentou a SBB.

 

Destaco, neste momento, o professor Dirceu Greco, que com sua lucidez e coragem conduziu a SBB nesses anos sombrios que nos entristecem e envergonham.

 

Ressalto, meu carinho e gratidão a todo o corpo diretivo da SBB, que nesse momento se despede, juntamente com o Comitê Científico e Conselho Fiscal, pelo companheirismo e pelas lutas para dignificar a SBB. A postura firme do presidente e de cada um dos seus componentes, diante dos poderes constituídos, foi um divisor de águas nesses tempos ameaçadores e nebulosos.

 

À Dalvina, Secretária Executiva da sociedade que durante todos esses anos tem, com fidelidade e competência, servido à SBB. À Tânia, nossa jornalista, que com maestria busca dar visibilidade aos nossos textos e ações. Muito obrigada.

 

O tempo, inelástico por sua natureza, me impede de citar nominalmente todos que gostaria. Destaco então, em um rol exemplificativo dos laços construídos e dos aprendizados efetivados, em razão do exemplo, experiência e amizade, os professores Gerson e Reinaldo, em nome dos quais abraço e cumprimento todos os demais que, de alguma forma, me impactaram na trajetória.

 

Registro, de forma destacada, a importância de todos os ex-presidentes e, em especial, da ex-presidenta Regina Parisi, em cuja data de aniversário recentemente nos lembramos de sua importância como mulher à frente da SBB e do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, com competência, coerência e determinação.

 

Meus agradecimentos a cada um dos que comigo compõem esse grupo que ora assume os destinos da SBB pelos próximos 2 anos. A confiança é essencial à construção de qualquer projeto coletivo. Sigamos juntos.

 

Às diretorias das regionais, registrem meu compromisso de que haveremos de construir um projeto compartilhado, representativo de nossos sonhos e valores.

 

À cada um dos sócios que espera de nós uma gestão comprometida, ética e acolhedora, estejam certos de que nos empenharemos em ouvir suas críticas e proposições de forma respeitosa, de modo a efetivar uma gestão que seja de todos nós, e não apenas dos membros da diretoria.

 

Gostaria de encerrar minha fala com um convite que busco explicitar a partir da declamação de uma poesia do grande poeta uruguaio Mario Benedetti, já falecido, exilado em razão do golpe e da ditadura militar implantada naquele país em 1973, por meio da  qual somos convocados a uma disposição  de resiliência, luta e esperança.  

 

“Não te rendas”

 

Não te rendas, ainda estás a tempo

de alcançar e começar de novo,

aceitar as tuas sombras,

enterrar os teus medos,

largar o lastro,

retomar o voo.

 

Não te rendas que a vida é isso,

continuar a viagem,

perseguir os teus sonhos,

destravar os tempos,

arrumar os escombros,

e destapar o céu.

 

Não te rendas, por favor, não cedas,

ainda que o frio queime,

ainda que o medo morda,

ainda que o sol se esconda,

e se cale o vento:

ainda há fogo na tua alma,

ainda existe vida nos teus sonhos.

 

Porque a vida é tua, e teu é também o desejo,

porque o quiseste e eu te amo,

porque existe o vinho e o amor,

porque não existem feridas que o tempo não cure.

 

Abrir as portas,

tirar os ferrolhos,

abandonar as muralhas que te protegeram,

viver a vida e aceitar o desafio,

recuperar o riso,

ensaiar um canto,

baixar a guarda e estender as mãos,

abrir as asas

e tentar de novo,

celebrar a vida e relançar-se no infinito.

 

Não te rendas, por favor, não cedas:

mesmo que o frio queime,

mesmo que o medo morda,

mesmo que o sol se ponha e se cale o vento,

ainda há fogo na tua alma,

ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque cada dia é um novo início,

porque esta é a hora e o melhor momento.

 

Mario Benedetti

 

Meu convite é esse, a todos e todas da SBB . Não é hora de nos rendermos.

A tormenta vai passar!

Recebam meu abraço de carinho e esperança.


Elda Bussinguer