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Acesse texto de Camila Vasconcelos sobre o sofrimento, silencioso, das crianças. Sem paz, sem país e sem pais...

Em áudio especial para a Rádio Metrópole (BA), Camila Vasconcelos*, membro do Conselho Científico da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB), faz um relato intenso, demonstrando, com precisão, a dramática realidade das crianças pela falta de atitude dos (des)governos em diversas situações que extrapolam o cenário pandêmico, e que as tornam invisíveis e esquecidas, como as nossas crianças indígenas em tantas aldeias pelo Brasil afora.  

 

“As crianças sentem fome, medo e vivem na sujeira... não gostaria de estar comentando sobre isso, mas infelizmente é real.”

 

Acompanhe a transcrição da fala de Camila na íntegra, e ao final, baixe o áudio original de seu relato.

 

 

Cada vez fica mais claro, em nossa incivilização, que há filhos sem paz, sem país e sem pais

 

Das cenas que descrevem as durezas da vida, penso que aquelas em que aparecem crianças são as que mais nos abalam. Crianças, sobretudo as bem pequenas, ainda têm a doçura, a ternura e a ingenuidade que as pessoas adultas por vezes já perderam, seja porque já viveram desventuras ao longo da vida, porque já sentiram choros represados ou reconhecem que, embora a felicidade seja uma realidade, a tristeza também pode ser.

 

Há dores, na vida, que se fazem necessárias, são as pequenas decepções, as curtas constatações sobre dias de chuva e de sol, tal como intempéries da existência. Mas há amarguras diferentes. Li, estes dias, que o número de crianças que têm experimentado dores inapropriadas para as suas idades cresceu enormemente no Brasil. O texto dizia sobre vivências antecipadas de desassossegos, desesperos e sustos continuados como se não tivesse fim. São filhos sem paz.

 

O olhar redondo e grande de uma criança assustada dói. Representa aquelas que sentem fome, medo e vivem na sujeira. Eu não gostaria que fosse verdade, eu não gostaria de estar comentando sobre isso, mas infelizmente é real, e fecharmos os olhos ou taparmos os ouvidos não vai fazer sumir a fome, o medo ou a sujeira delas, nem por um instante.

 

Há, também, os filhos sem país e não por conta de intempéries da natureza, mas por ações de outras pessoas, que explodem escolas, hospitais e casas sob os argumentos mais ensurdecedores que as próprias bombas, seres que trazem horrores a seres da mesma espécie.

 

Há crianças refugiadas no mundo, hoje, obrigadas a atravessar mares. Há crianças indígenas no Brasil, hoje, obrigadas a padecer pelos que insistem em dizer que o país é dos que chegaram e não dos que estavam aqui primeiro. O Brasil é de todos, e as crianças indígenas, sem seus espaços e recursos naturais, têm vivido, forçosamente, com fome, medo e sujeira.

 

Por fim, há filhos sem pais. Pare, ouça e acredite: há lugares que recebem imigrantes e separam de seus filhos em campos de detenção. Você imagina o que sente uma criança assustada entre desconhecidos? É frio na barriga que não passa. E esqueça o pretexto de fazer bem, porque o bem está no colo dos pais, seja onde for. E, falando sobre isso, afora os órfãos da pandemia, é tempo de abrir os olhos com fatos históricos que se prolongam. Há órfãos da ditadura! Há quem queira que você não acredite... então, mesmo que seja em silêncio, leia, ouça e assista sobre isso. Há livros e, atualmente, até mesmo o cinema.

 

Olha, crianças não decidem sobre o amanhã, quem decide é você. Galeano nos ensina que “quando é verdadeira, quando nasce da necessidade de dizer, a voz humana não encontra quem a detenha. Se lhe negam a boca, ela fala pelas mãos, ou pelos olhos, ou pelos poros, ou por onde for. Porque todos, todos temos algo a dizer aos outros, alguma coisa, alguma palavra que merece ser celebrada ou perdoada pelos demais”.

 

Busque suas fontes, seja livre do pensamento alheio e do fastfood de notícias falsas e inúteis.

 

 

* Camila Vasconcelos é advogada em Direito Médico e Professora da Faculdade de Medicina da UFBA, e membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Bioética.

 

Baixe o áudio em seu computador:

 

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