notíciassbb


SBB na mídia. Elda Bussinguer: Bolsonaro não está só em sua perversidade: o mal existe e ele está entre nós

Não teremos a dignidade perdida de volta com uma simples eleição.
Demoraremos décadas para recuperar o pouco que tínhamos e que hoje nos parece muito

 

 

Por mais que tenhamos desejado, sinceramente, dezenas de vezes, nos últimos dias, votos de um feliz ano novo, propagandeando, aos quatro ventos, nossa esperança de que os tempos difíceis e sofridos que vivemos em 2021 em breve passarão, o certo é que o sonho e os desejos de tempos melhores em 2022 não passam de mais uma utópica fantasia com a qual nos acostumamos a anualmente renovar as energias de modo a sobreviver diante das dores, sofrimentos e insucessos que porventura tenhamos tido nos últimos 365 dias do ano anterior.

 

Todas as evidências apontam no sentido de que 2022 será um dos anos mais difíceis que já vivemos no Brasil nas últimas décadas. Os resultados dos desmandos, desvarios, destruição ambiental, desigualdades de todas as ordens, solidificação de uma cultura de violência, de intolerância, de falta de empatia, de exclusões, de ruptura com os valores morais e democráticos, de desmonte da inteligência nacional, de empobrecimento, de desemprego, de subemprego, de fome e de miséria extrema, ainda irão perdurar por décadas, mesmo que haja um vigoroso movimento no sentido de reconstruir a nação, a democracia e a compreensão minimamente razoável do que seja verdade.

 

Da ordem à desordem, da existência de instituições caracteristicamente democráticas à desinstitucionalização generalizada, o certo é que demoraremos décadas a reorganizar o Brasil, de forma a que possamos chegar a um patamar civilizatório aceitável.

 

Impossível e injusto negar as lutas, as conquistas, as vitórias alcançadas por meio da organização da sociedade civil ao longo da história. Vencemos a ditadura, afirmam alguns, por que não venceremos o fascismo que se instalou nos gabinetes em Brasília e que se capilarizou e se enraizou por ministérios, secretarias, igrejas, universidades e famílias?

 

Sonham, muitos, com as eleições de 2022 como se tivessem elas o condão mágico de transformar o país, de novo, em uma lugar aprazível, saudável e justo para se viver. Como se a simples troca de um presidente pudesse trazer de volta a dignidade perdida, os amigos, amores e parentes que se foram nas disputas ideológicas que impossibilitaram o diálogo, nas armas em punho que substituíram os abraços, nas palavras torpes e agressivas que ocuparam as bocas de pastores nos púlpitos das igrejas, na mentira travestida de verdade, no negacionismo sustentado por antigos cientistas, alguns, inclusive, com doutorados e títulos de pesquisadores. Em narrativas vazias a substituir evidências científicas.

 

Não! Não teremos a dignidade perdida de volta com uma simples eleição. Demoraremos décadas para recuperar o pouco que tínhamos e que hoje nos parece muito.

 

A serpente tem muitas cabeças e elas aparecem a toda hora e em todos os lugares. Bolsonaro é apenas um representante frágil do mal, por mais que nos pareça o que há de pior na terra. Todavia, não está só em sua perversidade. Ele é a personificação de um mal que está entre nós, habitando em muitos com os quais convivemos no cotidiano.

 

O mal habita também o homem comum do povo, que não se parecia com Bolsonaro, que não é miliciano declarado, que não é homofóbico, racista e machista confesso. O mal habita no recôndito da alma, nos sentimentos inconfessáveis, no ódio alimentado, na maldade escondida sob a capa da bondade, na corrupção dos ditos homens de bem, na imoralidade escondida nos discursos morais de defesa da família, da propriedade e da igreja.

 

Há milhares de outros filhotes de serpentes espalhados pelas instituições, as mais diversas, por dentro e por fora dos aparelhos do Estado, por dentro e por fora das igrejas, por dentro e por fora das famílias ditas tradicionais. Há ovos de serpentes sendo chocados por todos os lados.

 

O mal existe e ele está ao derredor. É preciso pensar nisso antes de nos envolvermos com falsas ilusões de que a simples troca de algumas pessoas poderá nos livrar do mal.

 

É claro, como a luz do dia, que a substituição imediata do mal que se instalou na cadeira da presidência da República é urgente para estancar a tragédia e tentar iniciar um processo, que sabemos longo e difícil, de recuperação da nação brasileira, mas não nos iludamos.

 

As florestas queimadas, as árvores abatidas, os animais extintos, a inteligência nacional, a vergonha e a dignidade perdidas, a ressignificação dos valores, a ética e a verdade não se reconstituirão com a posse de um novo presidente e a substituição de todos os cargos comissionados em todos os níveis federais.

 

O mal e os maus não desaparecerão de imediato. Alguns se esconderão, outros voltarão pra o armário, outros ainda negarão por onde passearam e tudo que disseram. Mas o mal permanecerá.

 

Cuidemo-nos de não nos associarmos a ele, por conveniência, por desejos de poder, por interesses escusos, por comodismo, por preguiça, por medo. O mal possui estratégias refinadas de envolvimento dos bons.

 

A ilusão da bondade humana como um padrão, precisa ser repensada com urgência. O mal existe. A crueldade, a falta de empatia (manifestação mais evidente da psicopatia) estão por aí, ao derredor.

 

Em breve, nas disputas eleitorais, muitos deles se travestirão de honradez, de vestes características da religiosidade, da justiça e da defesa da família, para enganar aos incautos.

 

Cuidemo-nos do mal que habita em nós. É preciso vigilância permanente para não o deixarmos aflorar em nós.

 

As instituições desmanteladas e descaracterizadas no atual governo precisam ser reconstruídas e fortalecidas. São elas que nos podem proteger do mal que avança por dentro delas mesmas, colocando-as ao serviço de alguns em detrimento de uma maioria.

 

Elda Bussinguer, presidente da Sociedade Brasileira de Bioética, é colunista do Jornal A Gazeta (ES)


 

As opiniões expressas em textos assinados não refletem, necessariamente, a opinião deste canal, mas merecem ser lidos com atenção.