notíciassbb


Solidariedade planetária, saúde e políticas públicas, e vulnerabilidade: foram temas do segundo dia do Congresso Ibero-americano. Reveja, na íntegra...

Com o tema Bioética em um Mundo de Fragilidades, o Programa de Pós-graduação em Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR),
a Revista Iberoamericana de Bioética e a Regional Paraná da Sociedade Brasileira de Bioética (SBB-PR)
deram sequência nesta quarta-feira, 9 de novembro de 2022, aos trabalhos dos dois eventos virtuais de enorme relevância:
IV Congresso Internacional Ibero-americano de Bioética e X Congresso de Humanização e Bioética

 

No primeiro encontro da tarde, a palestrante Patrícia Maria Forte, mediada por Valquíria Elita Renk abordou o tema Solidariedade planetária: pensando o papel das instituições em tempos de fragilidades globais

 

Para ela, este título remete a três conceitos fundamentais: tempos de fragilidades globais, a perspectiva de uma solidariedade planetária e o papel das instituições de ensino nesse contexto, lembrando que a palavra fragilidade carrega 2 sentidos, fundamentais para a reflexão: debilidade e vulnerabilidade; permanência e transitoriedade. "A tarefa de nos atermos às vulnerabilidades é, ao mesmo tempo, urgente e extensa. Impossível não abordarmos sobre as crises mais recentes, como a epidemia de Covid-19, que acometeu drasticamente o planeta com muitos óbitos e, em consequência, crianças órfãs. Também refiro-me à guerra na Ucrânia, que além da devastação de cidades e vidas, levou à onda de refugiados, que se soma aos milhares de seres humanos já deslocados - à força - de seus países de origem em razão das guerras e da violação de direitos humanos”. Neste ponto, a palestrante lembrou de mulheres e crianças, as maiores vítimas de todo o tipo de violência e discriminação. “A sociedade está subjugada, hoje, pelo medo, pela violência e pela guerra”, acrescentou.

 

A professora frisou que cidadania planetária remete à criação de uma comunidade de iguais, pacífica, produtiva, sustentável e socialmente justa, numa nova percepção da Terra. Segundo Patrícia, “ela remete, também, à consciência de que temos uma identidade terrena, tendo como foco a superação das desigualdades, a eliminação das diferenças econômicas e a busca da paz como fruto da justiça, o que pretende a mitigação das extremas e profundas vulnerabilidades.” E acentua: “Daí o papel fundamental da educação e seu necessário compromisso com a formação que transcenda os limites delineados pelo pensamento racionalista moderno e pelo projeto de crescimento material, desigual e ilimitado, que acentuam e perpetuam o modelo gerador de iniquidades e vulnerabilidades.”

 

Na sequência, foi realizada uma mesa de discussões sob o tema Perspectivas Institucionais, com as participações de Francisco Javier Rivas Flores, Thiago Rocha da Cunha, Leide da Conceição, sob mediação de Renato Soleiman Franco.

 

Rivas Flores discorreu sobre Resiliência Institucional: adaptação dos hospitais à pandemia. Para ele, a ética clínica envolve a promoção do bem-estar no acolhimento ao paciente; o respeito pelo indivíduo em sua dignidade; a melhora da equidade sanitária; e fundamentalmente evitar danos desnecessários ao paciente, mesmo que seja necessária uma abordagem mais firme.

 

Em sua palestra sobre Bioética e Saúde Pública em tempos de fragilidade Planetária, nesta mesa de discussões,  Thiago questionou: "Que mundo de fragilidades é este?" E continuou: “Neste mundo globalizado, várias são as fragilidades, como as crises econômicas, as guerras, as crises ambientais, as crises migratórias, as pandemias.” Para o palestrante, “O planeta Terra não é nada frágil. Frágil é a nossa humanidade, é a nossa civilização. Quando falamos sobre fragilidade do planeta estamos na realidade nos referindo à fragilidade humana. O planeta - em si - seguirá vivo, forte e pujante, mas precisamos nos reestruturar, nos organizar."

 

Segundo o professor, é nesse contexto de fragilidade da civilização, da humanidade, que é imprescindível refletir sobre a questão da saúde pública numa perspectiva global, única, internacional e planetária. E pergunta: “Como pensar no tema da saúde numa perspectiva da bioética? Talvez nenhum desses conceitos seja suficiente... talvez a combinação deles nos aponte para algo mais necessário sob a perspectiva ética.”

 

Ao explicar cada um desses quatro conceitos iniciais relacionados à ampliação da saúde (internacional, global, única e planetária), Thiago inseriu um quinto conceito que, na sua concepção, seria a defesa bioética por uma Saúde Pública Universal, que não exclui os quatro conceitos iniciais, mas fundamentaria todos eles nesta ideia de concessão de saúde pública equânime, no aspecto mundial.

 

Ainda de acordo com o professor, a Saúde Pública Universal refere-se a três princípios fundamentais: coletividade (compreensão do processo saúde-doença, envolvendo transformações sociais, políticas e ambientais), universalidade (direito igualitário à saúde da humanidade, sem qualquer tipo de discriminação), gratuidade (considerando a saúde como Direito Humano).

 

Para ele, a Saúde Pública Universal e integral possibilitaria: 1) superar as discriminações baseadas em fronteiras; 2) superar o nacionalismo excludente (cidadania planetária); 3) financiamento por imposto global sobre grandes transações financeiras; 4) refletir sobre o paradigma do cosmopolitismo, dos direitos humanos, da cooperação internacional e da solidariedade planetária. E finalizou: "É preciso nos permitir pensar fora da caixinha, permitir não apenas sonhar, mas ir na direção de ações por uma cidadania pós-nacional, superando nossas barreiras mentais", citando um trecho do discurso* do Papa Francisco na Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, em 2022.

 

Na palestra seguinte, Leide da Conceição Sanches discorreu sobre os Desafios do ensino em período de pandemia: desigualdades em foco, ressaltando que o ensino remoto  - em razão do período pandêmico - exigiu inúmeras adaptações dos professores e dos estudantes, sem esquecer de toda a organização e de pessoas que fazem parte desse espaço  institucional de ensino. “É desafiador definir as diferenças entre os conceitos local e global, embora às vezes desencontrados, eles caminham juntos.”

 

A professora questionou: "Qual a responsabilidade social da educação e do ensino frente ao cenário da crise sanitária que se instalou  a partir de fevereiro de 2020 no Brasil, com a pandemia de Covid-19?" Ela fez um alerta: "É Importante frisar que este fato não é passado. Isso não passou, pois hoje lidamos com esses efeitos e tentamos reconstruir as nossas relações, o nosso trabalho, a nossa prática, nesses espaços de sociabilidade que não são mais os mesmos."

 

Ao citar dados do IBGE, Leide mostrou que a maioria dos estudantes acessa a internet por meio do celular, e foi nesse contexto, de exclusão digital, que se instalou o ensino remoto e emergencial, que implicava no uso de tecnologia. “Este fato representou a exclusão de boa parte dos estudantes envolvidos, em razão do local e região onde viviam. Não houve especificidade deste público por parte das instituições de ensino.” E questionou: “Como diminuir as desigualdades no ensino? Como pensar globalmente nesse acesso (à educação)?”

 

Para ela, as instituições também podem ter falhado em disponibilizar aos estudantes esses recursos tecnológicos, além de realizar a capacitação dos professores para que pudessem se planejar e viabilizar as condições mínimas para o desenvolvimento e a implantação de um curso on-line de qualidade. Mas, garante: “O grande desafio do ensino continua sendo a inclusão.”

 

Para finalizar o segundo dia do Congresso, foi realizada uma entrevista especial com José Carlos Bermejo (Espanha) e Márcio Fabri dos Anjos sobre as Políticas Institucionais frente às vulnerabilidades, sob a coordenação de Francisco Javier de la Torre Diaz, que pode ser acompanhada, assim como a íntegra de todas as palestras e debates desta terça feira (09/11/2022), clicando AQUI


 

* “Depois das duas trágicas guerras mundiais, parecia que o mundo tinha aprendido a caminhar progressivamente em direção ao respeito aos direitos humanos, ao direito internacional, das várias formas de cooperação. Mas, infelizmente, a história mostra sinais de regressão. Não só se intensificam conflitos anacrônicos, mas reemergem nacionalismos fechados, exasperados, agressivos e novas guerras de domínio que atingem civis.”  - Papa Francisco