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Triste destino de um país que se deixou contaminar pelo ódio e pelo fascismo. Texto de Elda Bussinguer, presidenta da SBB

Triste destino de um país que se deixou
contaminar pelo ódio e pelo fascismo

 

O que aconteceu em Aracruz é um alerta. O criminoso não operou sozinho.
Ele faz parte de uma cultura que se alastra

 

Elda Bussinguer*

 

O fascismo não é uma construção retórica utilizada como força discursiva para enquadrar grupos com divergentes posicionamentos políticos. Ele se espalha pelo país capilarizando-se e construindo redes que se articulam nos bastidores das redes sociais.


A tragédia ocorrida em Aracruz e que provocou uma comoção social, não é um caso isolado. Ela irá se repetir em muitos outros lugares, tornando-se frequente, sem que haja qualquer possibilidade de controle por parte das forças de segurança.

 

Esse drama já estava anunciado e era esperado por todos aqueles que se debruçam sobre a História e são capazes de compreender as lições que ela nos ensina. O processo de expansão do fascismo é sempre muito parecido. Os sinais são repetidos, visíveis, explicitados de forma acintosa por aqueles que assumem o lugar de divulgadores privilegiados do movimento.

 

Bolsonaro e sua equipe fizeram questão de utilizar fartamente esses sinais verbais e não verbais, signos de uma validação do Estado aos adeptos e seguidores dessa corrente nefasta. As ameaças ao STF e à liberdade de expressão por si só já seriam suficientes para que fosse feita a devida associação entre o regime fascista de Mussolini e o projeto que está sendo implantado no país. O copo de leite, utilizado pelos 3 participantes da live presidencial, não poderia ser interpretado de outra forma. Muitos outros sinais foram dados e compartilhados repetidas vezes.

 

A face grotesca e caricata de um presidente aparentemente burlesco, incapaz de pensar e, por isso mesmo, ingênuo e puro na sua simplicidade, como querem dizer alguns, não pode ser compreendida desta forma.

 

Não há qualquer inocência em suas manifestações. Elas são parte de um projeto neonazista que se consolida no país e que poderá se transformar em algo incontrolável, ainda que tenhamos eleito um presidente que represente um compromisso com a democracia e com os Direitos Fundamentais.

 

Infelizmente, por mais que o presidente eleito invista em políticas públicas de neutralização dos efeitos deletérios dos últimos anos, dificilmente conseguiremos nos recuperar dos destroços de uma política claramente fascista, na qual o gosto pela morte e o gozo com ela passaram a fazer parte de uma cultura que se alastra e cristaliza na sociedade.

 

São danos irreparáveis e irrecuperáveis. Enganam-se os que imaginam que uma revogação da política armamentista , necessária, claro, poderá desarmar o país. Isso não é possível. As armas, em número incalculável, que hoje se encontram nas mãos dos civis, não serão devolvidas ao Estado. Elas continuarão a circular e a sustentar o projeto vitorioso de morte e de violência que foi executado no país.

 

Não foi Bolsonaro sozinho que executou essa política. Ele foi apenas o braço visível, sangrento, grotesco, daqueles que sempre permanecem limpos e assépticos, enquanto seus capatazes executam o serviço feio, sujo, de que necessitam para manter “tudo como dantes no quartel do Abrantes”.

 

A apologia ao nazismo, os discursos de ódio, os ataques à democracia, foram tolerados, banalizados. Segundo a antropóloga Adriana Dias, existem hoje no Brasil cerca de 530 núcleos com aproximadamente 10 mil participantes.

 

Esses sujeitos estão armados com potentes armamentos e impregnados de ódio. Segundo ela, entre 2019 e 2021 houve um crescimento de 270% desses grupos.

 

Esses grupos, validados pelo discurso de ódio do presidente e de seus prepostos, foram naturalizando as manifestações de ódio aos negros, aos nordestinos, às mulheres, aos membros da comunidade LGBTQIA+ e a tantos outros.

 

Ao invés de serem punidos exemplarmente, foram sendo tolerados. Registre-se que há representantes desses grupos em todos os seguimentos da sociedade, das igrejas aos tribunais. A valorização do macho forte, dominante, que controla e silencia a mulher, dos enquadramentos e estereótipos, das associações dos indígenas a gado gordo que não trabalha, da ridicularização das diferenças, tudo aponta para a consolidação de uma cultura de ódio que divide a sociedade e, por meio da produção da inimizade, da antipatia e da aversão, permite que massacres como o que ocorreu em Aracruz se tornem corriqueiros.

 

O problema de punição a esse tipo de crime não pode ser associado à falta de legislação com potencial de permitir o enquadramento desses criminosos. Temos aparato normativo capaz de respaldar a responsabilização desses violadores. A questão não é essa. A política da tolerância e da leniência, o medo dos ataques desses grupos nos tornou silentes. A desculpa da liberdade de expressão é frágil e desprovida de fundamento. Não há liberdade para agredir, violar direitos fundamentais. Não há liberdade para se manifestar de forma preconceituosa e discriminatória. Isso é crime e não precisamos de nenhuma legislação a mais para que criminosos sejam investigados e responsabilizados criminalmente.

 

Os ataques a Gilberto Gil e Flora, os atos golpistas que continuam a se espalhar pelo país, as fake news, a exaltação à ditadura, ao general Brilhante Ustra, a Hitler, as manifestações contra o STF e às instituições, e tantas outras formas de manifestação que temos assistido, são, todas, faces da mesma moeda. A ultradireita brasileira é, inegavelmente, uma vertente do fascismo.

 

Instituições democráticas precisam se mobilizar no sentido de enfrentar o problema, que é grave e sintomático da sua grandeza.

 

O que aconteceu em Aracruz é um alerta. O criminoso não operou sozinho. Ele faz parte de uma cultura que se alastra. Foi ensinado a dirigir antes da hora, a manipular armas, a valorizar ditadores, a desvalorizar pessoas diferentes. Seus símbolos nazistas e suas roupas especiais, utilizadas no ataque, estavam dentro de casa. Ele não morava sozinho. Ainda que os pais não o incentivassem, foram tolerantes com comportamentos desviantes.

 

É preciso pensar em Aracruz e nas pessoas que partiram em razão do ódio alimentado e socialmente consentido como um alerta a todos nós. As consequências da tolerância, um dia, muito em breve, chegarão até nós, do mesmo jeito que chegaram nas famílias da pacata cidade capixaba.


 

* Elda Bussinguer é presidenta da Sociedade Brasileira de Bioética, pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV.

 

Publicado pelo Jornal A Gazeta (ES), edição de 29/11/2022.

 

 

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