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Os atos terroristas de 8 de janeiro e a prisão dos mandantes do golpe anunciado: texto de Elda Bussinguer

 

Atos terroristas: não basta prender os executores,
é preciso prender os mandantes

 

O golpe foi anunciado, planejado com cuidado e só foi evitado porque os ataques à democracia contaram, 
e continuam a contar, com as instituições da República.

 

Elda Bussinguer*

 


A democracia é um valor para alguns e um desvalor para outros. Os ataques que vêm ocorrendo há alguns anos e que se materializaram de forma violenta neste domingo (8) evidenciam que são muitos os que não a suportam e que, portanto, também não toleram os demais princípios dela decorrentes, tais como liberdade, igualdade, solidariedade, soberania popular, pluralismo político, dignidade da pessoa humana, entre outros.

 

A tentativa de golpe a que assistimos no Brasil e que se configurou pela invasão e depredação do patrimônio público, atingindo os Três Poderes da República em seus órgãos mais representativos, Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e Palácio do Planalto, não pode ser minimizada ou tratada como manifestação de delírio de alguns inofensivos, ingênuos, grotescos e caricatos adoradores de Bolsonaro, com uma religiosidade doentia.

 

Os riscos à democracia existem, são reais, estão sendo anunciados há tempos e têm, de forma sistemática e vigorosa, mostrado que a simples troca do poder central não vai silenciar e transformar, de imediato, aquilo que despertou com força na matriz autoritária, excludente e colonial dos brasileiros.

 

O golpe foi anunciado, planejado com cuidado e só foi evitado porque os ataques à democracia contaram e continuam a contar com instituições da República que deram a sustentação necessária para sua ocorrência com a potência destrutiva que assistimos na tarde de domingo.

 

Ninguém foi pego de surpresa. As autoridades sabiam e nada fizeram. As polícias sabiam, o Procurador Geral da República tinha conhecimento, o governador do Distrito Federal foi devidamente avisado e, portanto, sabia, se deixando “convenientemente” enganar por seu secretário de Segurança em um telefonema protocolar, os serviços de inteligência tinham toda a tecnologia e expertise para avaliar a dimensão dos estragos que estavam sendo planejados e dos riscos inerentes a eles e nada fizeram. Impossível acreditar que foi apenas incompetência. Não foi incapacidade técnica. Foi intencionalidade dolosa, planejada, e como tal deve ser exemplarmente punida.

 

A condução dos anunciados vândalos, terroristas e golpistas, ao longo da praça dos Três Poderes, feita pela polícia do Distrito Federal, não pode ser vista como ato isolado de policiais que calmamente telefonavam e fotografavam pacíficos cidadãos que legitimamente manifestavam sua insatisfação com o novo ocupante do palácio.

 

O quantitativo de policiais nas ruas, a mudança da tática, de última hora, pela segurança pública do Distrito Federal, anteriormente combinada com o Ministro de Justiça Flavio Dino, o descaso com as informações vindas da polícia legislativa pedindo reforço, a leniência, o acobertamento, a conivência criminosa, autorizaram a barbárie, o caos, a depredação do patrimônio público, os ataques à democracia e à Constituição.

 

A destruição das obras de arte e os cânticos religiosos no plenário do Congresso Nacional são um achincalhe à democracia e um deboche ao cristianismo autêntico. O golpe brasileiro, de inspiração trumpista, uma imitação barata das táticas antidemocráticas norte-americanas ocorridas dois anos antes, falam mais de nossa matriz colonial do que qualquer outra coisa.

 

Duas grandes diferenças entre a invasão perpetrada no Capitólio e a invasão nos três palácios de Brasília:  aqui o golpe, além de ter sido sobejamente anunciado, foi apadrinhado por militares em suas diferentes vertentes.

 

Muito antes da bomba no aeroporto de Brasília, sinal inequívoco da grandeza da articulação e do planejamento do golpe, as comemorações de Sete de Setembro já traziam evidências claras da pujança da orquestração antidemocrática.

 

Os terroristas brasileiros, vândalos, fascistas por excelência, se dividem eu duas castas que não podem ser ignoradas. Os executores da barbárie, idiotas úteis, capturados por um delírio coletivo, pobres de espírito e de grandeza ética, que se deliciam com as proezas que imaginam estar fazendo, que filmam e mostram o rosto construindo as provas para sua própria condenação,  e os mandantes, financiadores, articuladores, controladores da vontade coletiva por meios ilícitos, aqueles que prevaricaram, coautores do golpe, movidos por interesses escusos em razão da insatisfação com a perda dos privilégios, com os “riscos” que veem na democracia, com as dificuldades para continuarem a expropriar os bens públicos, produtores de miséria, contrários aos princípios de justiça social e dos Direitos Humanos Fundamentais.

 

Não basta prender os executores. É preciso prender os mandantes que continuam com suas identidades resguardas e dificilmente serão presos. Esses estão protegidos pelo círculo de amizades que caracteriza o modus operandi da oligarquia, dos donos do poder político, econômico e social.

 

O governo federal e os demais poderes da República mostrarão sua força e respeito democrático se, além dos executores já presos, identificarem e responsabilizarem os mandantes, financiadores do golpe, que se acostumaram a viver à custa dos privilégios, deixando na miséria e a morrer as vidas daqueles pelos quais sentem desprezo.

 

 

* Elda Bussinguer é presidenta da Sociedade Brasileira de Bioética, pós-doutora em Saúde Coletiva (UFRJ), doutora em Bioética (UnB), mestre em Direito (FDV) e coordenadora do doutorado em Direito da FDV.

 

Texto publicado pelo Jornal A Gazeta (ES), edição de 10/01/2023. 

 


 

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